Author: Antonio Fonseca

  • O ESTRANHO CASO DE PEDRO LEVI

    O ESTRANHO CASO DE PEDRO LEVI

    O Pedro Levi é incontestavelmente um dos bodyboarders portugueses que tem um apetite natural para ondas grandes e, mais do que apenas isso, para condições extremas e casos bicudos. Já não foram uma nem duas as vezes que entrou em condições onde mais ninguém o fez. Talvez seja mais do que simples atitude (ahahahahah!!!), mas a verdade é incontornável e não há como não dar crédito a este humilde jovem da península de Peniche.

    Seja como for, num destes dias voltou a surpreender numa sessão de free surf na Praia do Norte, Nazaré. O próprio fez o favor de me contar o episódio:

    “Isto aconteceu antes do campeonato [Prime da Bodyboard Pro Tour] ter lugar. Eu não podia participar porque não estava dentro do top 16, mas o mar de manhã estava com bom aspeto e um bocado maior do que ao longo do dia, por isso, não hesitei. Fiz um drop para dentro, levei com ela e notei que tinha a prancha vincada. Logo a seguir mandei-me para uma direita num invert e ao aterrar a prancha deu de si, partindo-se. Isto aconteceu 20 minutos depois de ter entrado. O Maca [Hugo Macatrão] emprestou-me logo uma prancha e salvou-me o dia. Estive quatro horas de molho e este acabou por ser um dia de ondas memoráveis!”

    E agora pergunto eu: Estranho? Só se não conhecerem a peça. Ahahahaha!!!

  • 5 MINUTOS SOBRE O SALT FACES

    5 MINUTOS SOBRE O SALT FACES

    Foi no passado fim de semana que Miguel Nunes, nome de código MTN, um dos mais ativos fotógrafos de bodyboard em Portugal, levou a cabo a exposição Salt Faces. De acordo com o próprio, esta “é uma homenagem aos rostos que o influenciaram ao longo dos tempos”.

    Na altura fiquei com a pulga atrás da orelha e decidi disparar mais algumas questões. Vejamos então o que o fotógrafo de 29 anos, que já vai com quinze de carreira, teve para nos dizer.

    Explica-nos o conceito do Salt Faces?
    O conceito é muito simples. Basicamente, trata de fotografar/retratar os meus amigos, antes ou depois de uma surfada, não interessa o sítio mas antes a maneira como a fotografia é feita. Um registo sempre igual para ter uma uniformidade geral no projeto.

    Como surgiu a ideia?
    Nem sei bem.. mas surgiu na necessidade de alguma maneira querer homenagear os amigos mais próximos pela confiança que depositam no meu trabalho. Acho que esta foi a maneira que encontrei mais objetiva e representativa para o efeito.

    O que pretendes atingir com esta exposição?

    Queria atingir a maior parte dos meus amigos. Claro que falta mais gente importante na exposição, mas por serem de outras zonas dos país tornava-se um pouco complicado. Contudo, consegui que estivessem presentes a maioria deles e isso deixou-me muito contente e com a sensação de missão cumprida. E ao mesmo tempo também quis mostrar o meu outro olhar de fotógrafo, não tão concentrado nas ondas mas mais em expressões e composições.

    Quantos riders envolvidos na exposição?
    Para já arranquei com 14.

    Qual foi o grande desafio no todo do processo?
    Um dos maiores desafios foi fotografá-los e tentar que não percebessem para que fim eram as fotografias, pois não queria revelar nada do projeto até ao dia da exposição. As perguntas eram mais que muitas e tinha de estar sempre a inventar, inclusive, algumas vezes utilizei a Vert para me safar! (risos) Depois o processo de montar a exposição também foi um bom desafio, mas a equipa da Primvs foi impecável e deu-me todo o apoio necessário.

    Este é um projeto para continuar (expandir) ou fica por aqui?
    Sim, este projeto pode não ter fim, quero continuar isto por muitos mais anos, quero fazer uma coleção de Salt Faces gigante, entre amigos e conhecidos, e tentar expandir mesmo a outros desportos e áreas (a pesca, por exemplo).

    Que outros projetos tens em mente no campo da fotografia?
    Para já nada, vou continuar apenas com este projeto. O tempo cada vez é menos para fotografar devido a questões profissionais, por isso, todo o tempo que tenho livre quero canalizá-lo para a praia e a fotografar o máximo de ação que for possível.

    Para onde caminha a fotografia?
    A fotografia está cada vez mais incrível, com o aparecimento das GoPro, iPhones, etc; quase toda a gente consegue tirar fotos aceitáveis. Onde tenho visto mais evolução é mesmo nas fotos aquáticas, está num nível avassalador com todos a arriscarem muito. O resultado está à vista…

    Que desafios se adivinham no mundo da fotografia?
    Não sei, mas a nível de tecnologia as máquinas cada vez têm mais qualidade e rapidez o que é muito bom para o nosso desporto. Depois, talvez comecem a aparecer máquinas que consigam fotografar e filmar ao mesmo tempo, visto que já vejo muitos fotógrafos também a caminharem para o campo do vídeo, uns por brincadeira outros por necessidade. Isso talvez possa ser o maior desafio.


    Fotografia: Miguel Nunes | Facebook

  • À CONVERSA COM TIAGO PIMENTÃO

    À CONVERSA COM TIAGO PIMENTÃO

    Tiago Pimentão é o novo Campeão Nacional de Dropknee, o primeiro da história do desporto em Portugal, título conseguido há pouco mais de uma semana. Com vista a darmos a conhecer à comunidade um pouco mais sobre o novo campeão decidimos colocar algumas questões em cima da mesa.

    Campeão Nacional Dk. Que significado tem conquistar o título e ainda por cima logo o primeiro da história do bodyboard?
    Para mim tem um grande significado, porque há muito que se pede para ter no nacional a categoria de Dropknee e sendo o primeiro sabe sempre bem ganhar. Fico muito contente, claro.

    De uma forma geral, que achaste do circuito?
    Bem, eu não sou de julgar muito as pessoas nem a maneira como fazem as coisas. Tenho a minha maneira de pensar e cada um tem a sua. Porém, penso que há pontos a melhorar, como em tudo. Em todos os campeonatos há sempre um ou outro aspeto que pode ser melhorado. De qualquer forma, o circuito foi bem disputado com grandes atletas de norte a sul a competir com grande nível, o que deu para dar um bom espetáculo.

    A divisão Dk não teve grande adesão, mas parece-nos que tem pernas para andar. Que recado darias aos fãs do Dk que optaram por não marcar presença?
    Percebo perfeitamente o porquê de muitos não terem participado este ano. O Dropknee é uma modalidade que nem toda gente faz e os que fazem são pessoas mais velhas, muitos deles com filhos e trabalhos. Devido a isso não puderam participar visto que algumas das provas foram durante a semana e não ao fim de semana como é habitual.

    Quem gostarias de ver a correr o tour em 2015?
    Eu gostaria de ver todos os que não puderam comparecer este ano. Temos grandes nomes, como o meu grande amigo e ídolo Nuno “Batata” Leitão, mas temos também o “Patachão”, David Rafachinho, João Onofre e o João André, entre outros, todos muito bons que andam por aí a partir tudo.

    O estágio da Seleção Nacional em Peniche foi uma novidade. Estás esperançoso que possas agora vir a representar a nação no mundial do Chile?
    Sim, o estágio foi uma boa novidade e andei bastante nervoso nesse dia para mostrar serviço e dar o meu melhor. A esperança é sempre a última a morrer, como todos sabem, e seria um orgulho poder representar o meu país em qualquer parte do mundo.

    Que tipo de rider és?
    Eu sou um rider completo, se é que posso usar este termo. Gosto de Dropknee, é verdade, DK4life, mas também gosto de mandar umas boas manobras em prone.

    Quais são as tuas grandes referências no Dk?
    A minha grande referência, como muitos sabem, é o meu mano “Batata”, mas desde puto que vejo filmes do Paul Roach a partir e foi desde aí que ganhei a loucura por fazer Dropknee. Gosto muito também do Dave Hubbard que é uma verdadeira máquina.

    Para terminar, fala-nos um bocadinho de ti e de como começaste no bodyboard…
    Bem, tenho 34 anos e agora estou a viver no Baleal, em Peniche. Faço bodyboard desde os meus 9-10 anos. Comecei no Dropknee com uma B-Max da praça, isto quando ainda vivia em Faro. Quando fui viver para o Meco já lá andava um bodyboarder em Dk, chamado Vasco Teixeira, que me viu a fazer altas ondas com a tal tábua da praça e fez ver à minha família que eu tinha talento e merecia ter uma prancha como deve ser. Foi aí que a minha grande irmã Sofia Pimentão agarrou no seu primeiro ordenado e comprou a minha primeira tábua. Fez-se luz, pois sem essa prancha não estaria com o nível que tenho andado a mostrar. Obrigado mana!
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    Fotografia: João Rosado (ação)

  • TÓ CARDOSO COM NOVO VÍDEO NA CALHA

    TÓ CARDOSO COM NOVO VÍDEO NA CALHA

    Aos 22 anos o bodyboarder da Nazaré não precisa de apresentações, pois é certo e sabido que o Tó Cardoso é um dos maiores talentos que temos por cá. Não se iludam, o futuro do bodyboard nacional (e europeu) passa por ele!

    Por isso, ao saber que se prepara para lançar um novo vídeo clipe, não demorei muito tempo em ir ao seu encontro na tentativa de obter mais alguma informação. Eis as respostas possíveis antes da estreia.

    O teu novo vídeo está na calha. Que podes adiantar sobre isso?
    Foi filmado em Java, na Indonésia. Se tudo correr bem é lançado este próximo domingo, pois esta semana saíram alguns clipes de bodyboarders de renome mundial, como o Pierre [Louis Costes] e o Jake Stone. Em conjunto com a Pride e a produtora Semiótica decidimos dar uma semana de intervalo.

    Java parece ser um lugar de sonho e foi, definitivamente, uma boa aposta para a composição deste vídeo clipe. Como definirias as ondas que rolam por lá?
    Defino como um palácio de ondas. Para além do visual daquela baía mágica, podemos ver de um lado uma esquerda perfeita e na outra ponta uma direita irmã gémea. É mesmo fascinante…

    Quem escolheste desta vez para meter o projeto de pé?
    Neste momento a pessoa com quem mais me identifico na captação de imagem é o Pedro Ferreira, um amigo da zona da Nazaré que tem a sua própria produtora de vídeo/fotografia. Daí ter optado pela sua edição de vídeo. No entanto, foi o Nuno Dias que nos acompanhou na viagem, desde o início ao fim, e sem ele não havia vídeo. Apanhou todas as minhas ondas e esteve dentro das minhas expetativas.

    Se te pedisse para destacar a melhor onda ou manobra da viagem, qual seria?
    A melhor manobra da viagem vai diretamente para o “kamikaze” Gonçalo Pinheiro, mais conhecido por “Zé Milho” (alcunha dada durante a viagem). A meu ver a melhor manobra do vídeo é mesmo aquele reverse air no minuto 4:40.

    Que podemos esperar para a próxima temporada?
    Este vídeo está muito bom pela qualidade das ondas, tivemos muita sorte no swell e conseguimos captar imagens excelentes. Porém, o vídeo que estou a trabalhar desde o ano passado vai estar mesmo top. Só para que percebam melhor, basta que diga que tenho guardadas as melhores ondas das melhores sessões de inverno. Ainda não está bem definido como irei mostrar todas estas filmagens, mas sei que não podia contar com melhor ajuda que a Semiótica. 

    Vídeo disponível AQUI.
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    Fotografia: Nuno Dias

  • O INICIO DO BODYBOARD SUSTENTÁVEL?

    O INICIO DO BODYBOARD SUSTENTÁVEL?

    Uma das coisas que sempre me fez alguma confusão foi o elevado custo das pranchas de bodyboard sabendo que são feitas de materiais altamente poluentes e de baixo custo de aquisição.

    A justificação é simples: até chegarem ao mercado português são várias as mãos que cruzam e, como é óbvio, todos os intermediários querem ganhar a sua parte no negócio. Quem se lixa, como é sabido, é o consumidor final.

    No entanto, no passado sábado, passei pela fábrica da Refresh Boards e acabei por ter aquilo a que se poderá chamar de um “sinal do futuro”. O Gato, shaper que dispensa apresentações, mostrou-me duas pranchas que tem andado a desenvolver. À partida pareciam bodyboards absolutamente normais, mas, quando me aproximei, dei conta que os decks eram feitos de cortiça!

    Calma, as pranchas feitas de cortiça, produto do qual Portugal é um dos maiores exportadores mundiais, não são novidade. Há algum tempo que foram apresentadas ao mercado, novamente por um empreendedor português. Porém, combinar a cortiça com os materiais que correntemente são usados na manufaturação duma prancha de bodyboard, confesso: nunca tinha visto.

    O seu aspeto era ótimo e, permitem-me que acrescente, francamente apetecível. O bloco e os rails mantêm-se em foam e a slick skin em Surlyn. A grande particularidade, o que chamou a atenção, foi mesmo o deck em cortiça… que é resistente à água (totalmente impermeável).

    Se funciona, bem, isso é outra questão, pois a fase ainda é de testes e, para já, ainda não houve quem a experimentasse no Oceano. O preço também ainda permanecesse no segredo dos deuses.

    A parceria é feita com a Dodo Cork Boards e tem como grande objetivo o recurso às fontes naturais e sustentáveis, pois a poluição não casa nada bem com as caraterísticas de um desporto como o bodyboard.

    Ainda estamos longe, muito longe, mas… será isto o início de uma nova era no bodyboard? A era eco-friendly, verde e amiga do ambiente?

    Parece-me que só o futuro o dirá…

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    Fotografia: Refresh Boards

  • DÉFICE DE ‘SEX APPEAL’

    DÉFICE DE ‘SEX APPEAL’

    Num destes domingos fiquei meio adoentado, deu-me a moleza e acabei por aterrar no sofá. Aproveitei o momento e decidi acompanhar o último dia do Antofagasta Bodyboard Festival (ABF). Na verdade até calhou bem, pois já fazia algum tempo que não via uma transmissão em direto de bodyboard.

    O ABF é o segundo mundial que tem lugar no Chile desde há alguns anos e chegou a surpreender-me, pois, no que diz respeito a organização e estrutura, pareceu-me bem melhor que o tradicional evento de Arica. A dupla de comentadores também não esteve mal, embora continue a achar que de uma forma geral falta mais cultura global do desporto. O pior foi a transmissão que ora ia abaixo ora ficava sem som.

    Mesmo assim, a pouca energia e o estado enfermo em que estava envolvido não me deixaram alternativa. Optei por continuar a (tentar) acompanhar. Não se iludam, as ondas estavam más, muito batidas pelo vento sideshore, mas a malta teimava em voar, muito graças ao efeito “trampolim”.

    Sinceramente, não gostei do espetáculo. Okay, era bodyboard… mas o que me estava a ser apresentado era fraco e claramente desinteressante para os padrões atuais. Mesmo assim, sempre que tinham oportunidade, os “pros” da modalidade faziam questão de dizer ao microfone que aquele estava a ser um evento do outro mundo.

    Evidentemente, sei bem que o bodyboard é para ser feito em todas as ondas. Não só de grandes tubos e slabs é composto o todo da modalidade. É sabido que etapas como a de Antofagasta têm necessariamente que existir. Contudo, enquanto espetador, o que vi não me cativou. E é este sentimento natural de indiferença para com um desporto que sigo há quase trinta anos, que eu e outros muito possivelmente sentimos, que tem que ser combatido pela nova equipa da APB (Association of Professional Bodyboarders).

    Em vez da cómoda passividade (de aceitar tudo o que é apresentado “chave na mão”), talvez fosse bom pensar que a solução pode passar pela proatividade. O buscar novos destinos e ondas para o circuito pode ser um bom tónico. Sem dúvida que é um desafio interessante. Mas isto sou apenas eu a falar.

    O que sei é que ao World Tour parece faltar nos dias que correm uma pitada de “sex appeal”. E quando assim é meus amigos, temos garantidamente um berbicacho em mãos.

    Sex appeal
    1. the ability to excite people sexually;
    2. immediate appeal or obvious potential to interest or excite others, asby appearance, style or charm.


    Fotografia: Ramon Miranda

  • É HORA DE PASSAR O TESTEMUNHO

    É HORA DE PASSAR O TESTEMUNHO

    Não há uma forma fácil, suave ou bonita de dizer o que estou prestes a dizer (desculpem-me a redundância!). No entanto, antes de tudo, quero que pensem no seguinte: quando se embarca ou lança um projeto como a Vert, no seu core uma revista de bodyboard, é porque, acima de tudo, se deseja partilhar o feeling do desporto. Neste caso em concreto o do bodyboard.

    No fundo, como se costuma dizer lá por fora, o grande objetivo é partilhar “The Stoke”. Esse é definitivamente o derradeiro propósito.

    Portanto, após 20 anos a cumprir o papel de timoneiro editorial desta vossa publicação, decidi que – eventualmente, num momento de rara lucidez – era chegada a altura de passar a pasta a outra pessoa. E para isso nada melhor do que alguém que já faz parte da equipa, vive e respira o projeto há vários anos.

    Obviamente, isto não significa uma saída definitiva e muito menos o abandono do projeto. Muito pelo contrário, estarei da mesma forma envolvido, de corpo e alma a 100%, mas focado noutras funções dentro da revista que há muito tencionava abraçar.

    Podem ter certeza absoluta, estarei sempre disponível para dar apoio ao novo responsável editorial e, se for mesmo necessário, para supervisionar o todo da revista. No entanto, se calhar ao contrário do que muitos pensavam, este cargo não é vitalício… e muito menos serve para alimentar o ego.

    O Ricardo Miguel Vieira, que irá ter a função de substituir-me como editor, já faz parte da casa deste 2009, altura em que teve o seu primeiro texto publicado na edição 96. A partir daí a sua presença pela redação e pelas páginas da Vert só tem vindo a conquistar ainda mais relevo e importância.

    Eu tenho certeza absoluta que ele consegue dar conta do recado, pois as suas capacidades são incríveis. No seu íntimo ele também sabe que está preparado e pronto para o desafio que se avizinha.

    Portanto, não vejam esta passagem de testemunho como um ponto final, mas antes como o assinalar de uma nova era onde é preciso renovar e injetar novas ideias. E haverá melhor forma de renovar do que sangue novo?

    Como sempre fizeram comigo, peço-vos agora, fiéis leitores, que continuem a dar o vosso apoio à Vert e o estendam ao Ricardo que tem pela frente um duro desafio. É que, não se esqueçam, daqui a um mês sai a primeira edição de duas que estão previstas para este ano.

    A partir de agora podem contatar o vosso novo editor neste email: ricardo@vert-mag.com.

    Eu sei que ele estará disponível, aberto a sugestões e terá sempre uma resposta para cada um de vós. É que, tal como eu, também ele visa partilhar o verdadeiro feeling do bodyboard.

    Vida longa à Vert!

  • KUNG: O PAI DO BODYBOARD BRASILEIRO

    KUNG: O PAI DO BODYBOARD BRASILEIRO

    O nome pode até soar estranho para muitos, mas isso apenas sucede porque a cultura que possuem do bodyboard, o desporto que amam acima de qualquer coisa, não é suficientemente vasta. Marcus Cal “Kung” é o pioneiro, o bodyboarder número 1, enfim, como os nossos irmãos além-mar referem, o pai do bodyboard brasileiro. Ele iniciou a sua caminhada em 1973 e desde então tem estado envolvido com a modalidade. Fundou a primeira associação mundial do desporto, a AMBERJ (Associação de Morey Boogie do Estado do Rio de Janeiro), regulamentou, competiu e implementou o bodyboard um pouco por todo o lado. O resultado desse trabalho culminou com a atribuição do prémio Personalidade Mundial no Pipe Challenge de 1988. Hoje em dia é shaper profissional e continua a viver intensamente o desporto.

    Primeiro que tudo… de onde vem o nome Kung?
    Na época passava no Brasil a série Kung Fu, com David Carradine como protagonista principal. O personagem também era careca e como eu praticava Tai Chi, não deu outra! (risos)

    Considerado o pai do bodyboard brasileiro, como foi ser um dos pioneiros e desbravar as ondas nesses primeiros tempos?
    Foi incrível! Lembro que só para ir até a Praia do Pepino (São Conrado), como era conhecida, era uma aventura. A vantagem é que fui o primeiro da galera a ter carro, então comecei a explorar os picos da orla carioca e a reunir mais e mais os bodyboarders que fui conhecendo. A primeira viagem para Saquarema, onde morei durante seis meses, foi irada. Recordo também da primeira ida para Arraial do Cabo… e por aí vai.

    Quando e onde rolou o primeiro campeonato no Brasil?
    O primeiro campeonato foi na praia de Piratininga, Niterói, em 1983.

    Lembra quem venceu e quais os atletas de destaque na altura?
    Lembro sim! Eu fiquei em segundo lugar. Lembro que fiquei revoltado, pois perdi a final para o meu grande amigo Mário Rutman. Mas ele mereceu! (risos)

    Qual o evento que mais o marcou?
    Foram dois. A minha primeira participação no Pipe Master, em 1985/86, no Havai, com os ídolos que costumava ver nas revistas. Eles estavam ali, ao vivo, no mar, ao meu lado, praticamente só para a gente! E depois, em 1987, o Bliss International, o primeiro evento internacional no Brasil, no Rio de Janeiro. Além de competir, organizei e consegui trazer as lendas do bodyboard como Mike Stewart, Ben Severson, Chris Ann Kim, Carol Phillips, David Cunniff, Keith Sasaki e Jay Reale. Foi memorável pelo evento e pelo encontro. Mary Lee, gerente de marketing da Morey Boogie, não acreditou no que viu no que diz respeito a estrutura e público na praia.

    Por volta de 1988 recebeu o prémio de “personalidade mundial” no internacional de Pipe. Como foi ser alvo de tal distinção?
    O prémio de personalidade mundial foi um marco importante na minha carreira, porque eu realmente dedicava-me para aprimorar a integração dos bodyboarders no Brasil e no exterior. Criei associações aqui e noutros países, além de organizar e regulamentar as regras e a formação dos juízes, algo inédito até então.

    Quais foram as suas principais referências no desporto?
    As principais referências foram Jack “The Ripper” Lindholm e Mike Stewart, com estilos inconfundíveis e inspiração plena. No Brasil, a primeira geração dos bodyboarders que competiram comigo e ajudaram-me a evoluir, como Cláudio Marques, Kiko Ebert e Kiko Pacheco. De seguida, os ainda jovens Xandinho e Paulo Esteves. E, por último, incontestavelmente, Guilherme Tâmega que desde pequeno se destacava e mostrava o caminho que o consagraria ao reconhecimento internacional.

    Você foi um dos pioneiros do bodyboard, mas também formou associações, regulamentou o desporto, competiu, foi atleta profissional, trabalhou em marketing de empresas de surf, foi relações públicas, criou e desenvolveu marcas, e hoje em dia cumpre a função de shaper. Que análise faz deste seu percurso?
    Sim, é verdade, passei por todas essas funções ao longo da minha carreira profissional no desporto. E sinto que poderei contribuir ainda mais na área de estruturação e organização para alçarmos voos mais altos. Voltei a atuar profissionalmente como advogado e pretendo fazer uma especialização em desportos radicais. A análise é que fiz o que tinha que ser feito e sinto-me com o dever cumprido até aqui. As minhas realizações e conquistas devem-se não só a mim, exclusivamente, mas a um grupo maravilhoso de pessoas que acreditaram, partilharam e discutiram as minhas ideias. Assim, melhoraram-me a mim e o bodyboard. Aprendi muito, sou grato e feliz pelo que conquistei. E só me arrependo de não ter apanhado mais ondas enquanto trabalhava para organizar os eventos e as associações! (risos)

    A criação e divulgação da Equipa Speedo de Bodyboard, nos anos 80, é um dos seus trabalhos que mais recordo. Hoje em dia seria possível levar a cabo um projeto dessa envergadura?
    Os anos 80 foram o auge do mercado brasileiro e também mundial! No Brasil, no momento, não seria possível. Não há mercado preparado para um projeto desses tão grande. Acho que a nível mundial só seria possível em alguns mercados de escala proporcional.

    Atualmente você tem a sua própria marca, a Kung Bodyboard, e continua a formar novos atletas na Escola de Bodyboard Kung. Até que ponto essas duas funções se complementam e caminham de mãos dadas?
    Sim, as duas atividades se complementam. A primeira é a produção de pranchas e acessórios, com as divisões de iniciantes e amadoras, que é feita por terceiros, com foco na distribuição para as lojas. E a linha profissional e customizada, minha atividade direta como shaper, com foco nas lojas especializadas, clientes e atletas. A Escola Kung de Bodyboard é um canal de vendas e serviço para o bodyboarder e/ou qualquer pessoa que queira iniciar a prática. Na escola há a convergência das duas atividades pois promovo o bodyboard, o treino e consequentemente o lifestyle do bodyboarders com a venda dos produtos da marca Kung.

    A Phazer é uma das inovações que podemos associar à Kung Bodyboard. No futuro, por onde passa a evolução das pranchas de bodyboard?
    A Phazer é um design incrível e vejo a reação dos atletas e clientes quando a usam pela primeira vez, pela velocidade e funcionalidade. Ultimamente tenho notado uma mudança no design dos fundos das pranchas, pois a maioria só usa canais. No surf também foi assim, até que Kelly Slater começou a usar as concaves. Também acompanho a indústria e as novidades de perto, além de procurar parcerias com fornecedores, shapers e fabricantes. Sem dúvida, os materiais são essenciais para a qualidade e a evolução das pranchas, mas há ainda muito que percorrer em termos de design com funcionalidade e foco no desempenho. Atualmente, vemos as marcas a serem produzidas por uma ou duas grandes fábricas, com distinção apenas nas logos e todo o dinheiro investido em marketing. Essa é a atual “ditadura” que vivemos mundialmente no mercado de pranchas, mas há também o trabalho de “guerrilha” que é representado pelos shapers ao redor do globo. É uma forma, do “core division”, de manter o esporte na sua essência. O surf, por exemplo, embora tenha passado por várias crises, jamais deixou de vender pranchas de shaper para surfista. No bodyboard, quando as megaempresas do segmento de brinquedos, como a Kransco e a Mattel, se desinteressaram pelo bodyboard como produto, caímos no abismo e só agora mostramos sinais de revitalização e reestruturação baseados no momento atual do mercado.

    Decorridos 40 anos, como vê a evolução do bodyboard até hoje?
    Em performance é incontestavelmente incrível! O desporto está bem representado nesse aspeto. Porém, no que toca a organização e estrutura está com “nota baixa”. Não há uma organização e estrutura que visualize o crescimento da modalidade e uma divulgação nos mesmos níveis do passado. Embora, como toda a atividade radical que passou por momentos de dificuldade como o skate, surf, ainda temos carência de recursos humanos e um projeto de médio-longo prazo a ser implantado que dê consistência e futuro a todos os envolvidos.

    E como você se vê daqui a 10 anos?
    Mais velho, com saúde para surfar, divulgar o esporte e a marca Kung!

    —
    Fotografia: Marcello Bravo & Silvia Barcellos.