Author: Antonio Fonseca

  • O PROFISSIONALISMO POTENCIADO

    O PROFISSIONALISMO POTENCIADO

    Li ontem algures que Sócrates Santana, o miúdo que veio de uma favela do Rio de Janeiro e é o protagonista principal da história da Cinderela que resultou na conquista do primeiro título mundial Pro Júnior para o Brasil (aqui), passou a ser agenciado por uma empresa de marketing desportivo.

    A notícia pode não surtir grande efeito para o bodyboarder comum, que apenas deseja apanhar boas ondas no seu dia a dia, mas para o jovem carioca isto pode significar mais exposição, mediatismo e, claro, mais patrocínios e apoios. Afinal de contas, o bodyboarder bicampeão brasileiro sub-16 (em 2013 e 2014), de agora 17 anos, é detentor de um título mundial e tem o futuro pela frente.

    Quem sabe até uma carreira recheada de títulos e sucesso no mundo profissional do bodyboard. No que toca a potenciar carreiras, o povo brasileiro surpreende sempre, digam o que disserem. E esta não deixa de ser uma boa notícia.

    No entanto, em perfeita oposição a este exemplo, temos os jovens bodyboarders portugueses que dificilmente sairão do amadorismo a que estão ancorados. Talento não falta por aqui, mas a visão que têm do mercado está destorcida. E por esse motivo vendem-se por muito pouco e quase sempre a troco de material.

    Podem nunca ter reparado, mas, ao fazê-lo, estão a hipotecar uma eventual carreira no bodyboard. E mesmo que tudo o que queiram é apanhar umas ondas e curtirem a vida ao máximo, lembrem-se dos amigos e compinchas de praia que aspiram a outros voos e, quem sabe, gostavam de explorar um pouco mais a fundo o mundo do bodyboard.

    É comum dizer-se que são os próprios bodyboarders que asfixiam e impedem a evolução do Bodyboard. É triste, mas olhem que começo a achar que há uma pontinha de verdade nisto.

  • FAVELA STORM

    FAVELA STORM

    O Circuito Mundial de Bodyboard terminou com a última etapa a ser disputada em Porto Rico. Foi aí que eu e os restantes aficionados do Bodyboard ficámos a conhecer o novo campeão mundial Projunior da modalidade, o brasileiro Sócrates Santana de 16 anos (faz 17 no próximo dia 22 de novembro). Aliás, Sócrates é o primeiro campeão júnior da história do Brasil.

    Agora, o que a maior parte dos leitores desconhece é precisamente o facto de que Sócrates Santana, juntamente com Matheus Bastos (17) e David Barbosa (18), todos eles competidores na APB Tour e na luta pelo troféu júnior mundial em 2015, serem oriundos das favelas do Rio de Janeiro.

    Sócrates e Matheus vivem na Favela Pavão-Pavãozinho, que dá para as praias de Copacabana, enquanto David vive na Rocinha que é uma das maiores e mais perigosas favelas do Brasil.

    Entre o processo de iniciarem a competição até se encontrarem a lutar pelo título mundial, eles acabaram por ser o principal rosto de um novo movimento; um movimento que mostra o importante papel das ações sociais e de todo o trabalho que as escolas e os clubes locais realizam diariamente nas praias cariocas.

    Mais do que isso, o sucesso dos três no mundo do Bodyboard serve acima de tudo para mostrar que existe uma alternativa ao crime e ao ambiente hostil que rodeia muitos jovens brasileiros. Para além do que eles próprios conquistaram, estão igualmente de parabéns as escolas que os formaram – Escola de Bodyboard de Copacabana, situada no Posto 5, e a Escola de Bodyboard da Rocinha, em São Conrado -, afastando-os de uma vida que a nada levava.

    A Brazilian Storm do mundo do surf já conhecemos faz tempo. Há pouco tempo também nos foi dada a conhecer a Portuguese Storm com a participação de três surfistas lusos no WCT de Peniche. Pois bem, meus amigos, está na hora de conhecerem a #FavelaStorm !!!


    Nota: Texto baseado numa crónica de Steve Jackson.

  • REVERT

    REVERT

    Progresso, inovação e evolução caminham de mãos dadas no mundo do Bodyboard e por esse motivo não fui capaz de ficar indiferente à nova manobra inventada por Dave Hubbard.

    O havaiano, sete vezes Campeão Mundial de Bodyboard em Dropknee, de 33 anos, também conhecido no meio por Mr. Versatilidade não só devido aos seus desempenhos de joelhos, mas também em Prone e em Stand Up, acaba de se juntar a uma longa lista de pioneiros e criativos riders que, ao longo dos tempos, deram o seu contributo para a evolução da modalidade.

    Falo, obviamente, de bodyboarders do calibre de Pat Caldwell, Mike Stewart, Eppo, Ben Holland, Jeff Hubbard, Pierre-Louis Costes e até Jake Stone, entre outros, que estão na génese de alguns movimentos que ajudaram a definir ou a destacar a modalidade: El Rollo, Backflip, GyRoll, Rewind, Gorf, Air Roll Spin, 720, Double Backflip, Iron Lotus, Reverse Roll, entre outras manobras.

    Dub, que há bem pouco tempo conseguiu a façanha de completar um Dk El Rollo (ou seja, fazer o movimento do El Rollo mas sempre em Dropknee, incluindo a aterragem), volta a destacar-se com um novo movimento que dá pelo nome de… Revert.

    Na verdade, segundo consta, trata-se de um “Reverse Invert”, ou seja, um Invert (aéreo) realizado no sentido contrário ao habitual. A imagem anexa, captada no Taiti, apesar de confusa à primeira vista, exemplifica bem do que estou a falar.

    Mr. Versatilidade? Pois claro, nem havia outra forma de não ser.


    Fotografia: Matt Castiglione

  • ARTUR FERREIRA: “APOSTA NA SELEÇÃO É BASILAR NO FUTURO DO BODYBOARD PORTUGUÊS”

    ARTUR FERREIRA: “APOSTA NA SELEÇÃO É BASILAR NO FUTURO DO BODYBOARD PORTUGUÊS”

    O Circuito Nacional Open 2015 ainda não terminou, a sétima e última etapa tem lugar a 14 e 15 de novembro em Peniche, mas com a realização da penúltima etapa na Praia do Norte, no passado fim de semana, ficaram conhecidos os novos campeões nacionais (aqui). Por esse motivo e também aproveitando para fazer uma espécie de ponto da situação, investimos numa entrevista com Artur Ferreira, Vice-Presidente da Direção da Federação Portuguesa de Surf. Eis então o essencial de uma conversa, no mínimo, esclarecedora.

    Para começar gostava que falasse da passagem do Circuito Nacional Open para as mãos da FPS e do esforço que isso implicou na vossa estrutura. Tendo em conta que nos últimos anos este esteve a cargo da APB, em que moldes e circunstâncias se deu essa transição?
    No final de 2013 foi eleita uma nova direção da APB (Associação Portuguesa de Bodyboard). Por divergências internas, essa direção acabou por “ruir” em maio de 2014. A partir desta data a APB entrou em modo de gestão, concentrando-se na organização do Bodyboard Pro Tour 2014. Após a prova de Santa Cruz, fomos informados que o organizador/coordenador do circuito, tinha abandonado esta função. A partir deste momento, a Catarina Sousa e o Nuno Olim assumiram a organização do circuito com o objetivo de o finalizar. Após conversarmos com a APB, no final do ano, chegou-se à conclusão que esta não tinha condições para garantir a organização do circuito, pelo que a FPS fez aquilo que lhe correspondia, que foi tentar criar um circuito de custos realistas, com base nas indicações que os atletas haviam determinado como suas preferências em 2014.

    Uma das novidades do circuito para este ano foi o incremento de etapas, aliás, muito bem acolhidas pelos atletas. Porém, o período de realização em cada etapa passou para apenas um dia. Fale-me um bocadinho dessa consolidação do circuito para sete etapas e também no porquê destas passarem a ser realizadas num único dia, o que faz com que seja uma jornada muito cansativa para todos os envolvidos, incluindo organização, com provas a não terminarem por falta de luz, entrega de prémios a terem lugar “às escuras” e sem ninguém a assistir, etc…
    O formato do circuito 2015 foi definido com base nos seguintes dados: Análise da participação nos anos (2012 a 2014). A média do nº de inscritos, por etapa, sem contar com a etapa dos Açores, era de 48 atletas; Formato apoiado pelos atletas em 2014. As provas Prime estavam previstas num formato em que os atletas competiam seis vezes no mesmo dia. Esta situação foi revista, por sugestão da FPS, após uma reunião entre a APB, a FPS e os dois organizadores das etapas Prime em 2014. Acabou por se retirar do formato as fases de não eliminação ficando o formato definido com 3-4 rondas (dependendo de haver ou não condições para man-on-man) para a generalidade dos atletas. Portanto, considerando que um formato de 48 inscritos, embora difícil, era exequível num único dia, e ainda que a grande dificuldade das organizações era a sustentabilidade financeira dos eventos, a FPS optou por criar esta possibilidade no caderno de encargos, deixando assim a possibilidade de escolha aos organizadores, baseada nas suas reais possibilidades. A verdade é que apenas a organização da etapa da Costa de Caparica avançou com a proposta de fazer o evento em dois dias, permitindo a inclusão das três categorias na prova. No final de 2015 iremos naturalmente reavaliar e decidir o formato de 2016. Um dos pontos positivos do formato escolhido foi o interesse que houve na apresentação das candidaturas. Um dos pontos negativos foi que o modelo de um dia se revelou demasiado exigente. Pensamos que o próximo passo será criar um incentivo para que as organizações optem por organizar provas de dois dias.

    No início do circuito também houve alguma polémica relativamente aos pontos a atribuir em cada etapa. Isto levou alguns atletas a tirarem conclusões precipitadas. Quer aproveitar para esclarecer a situação?
    Não faço ideia de onde surgiu este mal-entendido. O caderno de encargos é claro relativamente a esta situação. Está previsto no caderno de encargos, que na categoria Open, as provas com 500 euros de premiação atribuem 1000 pontos ao vencedor, e que todas as provas entre 1.000-2.500 euros atribuem 1200 pontos ao vencedor. As provas da categoria Feminina e Dropknee atribuem 1000 pontos ao vencedor, independentemente do valor da premiação. A fundamentação por detrás desta decisão, é que o grau de dificuldade de uma prova não se altera pelo facto da premiação ser mais elevada. Os atletas de topo que se inscrevem são sensivelmente os mesmos, como tal o valor desportivo de uma prova de premiação de 1.000 euros é o mesmo que uma prova de 2.500 euros. É nosso entendimento que esta situação não deve influir no mérito desportivo e determinação do Campeão Nacional. A exceção da premiação de 500 euros, existe como fator dissuasor, pois a inscrição mínima são 20 euros, e um evento de premiação de 500 euros é altamente vantajoso do ponto de vista financeiro, queríamos evitar esta situação.

    Um dos grandes pontos negativos que é apontado ao circuito este ano é precisamente a fraca comunicação. Como procura a FPS colmatar essa falha de forma a garantir mais visibilidade para os bodyboarders e até para o próprio circuito? Até porque, como se sabe, quanto maior a visibilidade mais patrocinadores se conseguirá atrair no futuro, de parte a parte…
    É verdade, mas esta não é uma situação específica do Bodyboard. Ela reflete-se em todas as modalidades. Dois mil e quinze foi um ano de aprendizagem e avaliação das necessidades da FPS, enquanto organização. O orçamento da FPS é extremamente reduzido face à sua atividade. Tivemos de definir prioridades e adaptar a nossa estrutura de custos. O foco colocou-se em “emagrecer” a despesa administrativa para poder investir na área desportiva, nomeadamente nas seleções. Uma das áreas que sofreu com este exercício foi precisamente a comunicação que, desde então, está entregue a cada um dos promotores dos eventos. Esta é uma das situações que deverá ser revista para 2016.

    Passando para outro tema. Uma das boas novidades anunciadas pela FPS para este ano, relativamente ao bodyboard, foi precisamente a participação no ISA World Championship que tem lugar em dezembro no Chile. Essa parece ser uma aposta forte desta direção. Fale-me um bocadinho sobre isso…
    Desde que assumimos a direção da FPS, que definimos como prioridade o projeto das Seleções Nacionais. Estivemos em 2013, até ao último momento a tentar garantir a participação no Mundial na Venezuela, mas infelizmente não foi possível. Portugal tem uma história nesta competição que torna obrigatória a presença no ISA Bodyboard World Championship. Infelizmente, a estratégia da direção anterior não era esta, tendo chegado a receber verbas adicionais para viabilizar a deslocação da seleção à Venezuela em 2012, tendo posteriormente optado por aplicar essa verba de outra forma.

    Para concluir, em termos gerais, que balanço faz a FPS do bodyboard em Portugal e de que forma espera continuar a contribuir para a sua evolução?
    O Bodyboard passa por uma fase de renovação, era impossível manter níveis de crescimento semelhantes aos que se viram no final dos anos 90. É fácil olhar para o passado e identificar oportunidades não aproveitadas. Pensamos que esse é um exercício que só é benéfico para corrigir opções passadas. Temos de nos concentrar nos próximos anos. A verdade é que, em 2015, apesar de ainda faltarem diversas etapas nos circuitos de Bodyboard, pela primeira vez desde 2007 há um aumento de rankeados face ao ano anterior. Sendo o número de rankeados atualmente já superior aos de 2014 e 2013. Sendo que o maior aumento é na categoria de Sub-12 e Open Masculino. O número de federados apresenta também desde o ano passado uma evolução favorável, sendo inclusivamente mais expressiva que a de rankeados. A somar a estes dados, há também as prestações da nova geração de bodyboarders, onde se destacam atletas como o Miguel Adão, com um ano majestoso em 2014, Campeão da Europa, 2ª lugar na categoria Pro Junior no Sintra Portugal Pro, quem tenha assistido ao Mundial do Chile seguramente não terá duvidas sobre quem era o atleta que mais se destacava na água, e que acabou ingloriamente num 4º lugar. O Ricardo Rosmaninho com três muito sólidas prestações nas últimas três etapas da APB World Tour que se realizaram em Portugal. O Stephanos Kokorelis, o Guilherme Guerra, etc. Também no feminino, o panorama tem sido muito animador. Esta é uma categoria onde Portugal tem demonstrado maior capacidade de renovação. Primeiro a Dora Gomes, depois a Rita Pires e a Catarina Sousa, e mais recentemente a Teresa Almeida e a Joana Schenker. Creio que a aposta na seleção é basilar na estratégia de futuro do Bodyboard em Portugal. Existem ainda muito bons indicadores do potencial da modalidade, mas a margem de manobra reduziu-se muito, não podemos perder tempo despendendo energia em situações que não gerem valor. A iniciativa do Campeonato Nacional de Masters, desde que bem canalizada, tem um bom potencial para trazer de volta, algumas pessoas importantes para a reafirmação da modalidade.

  • SILÊNCIO TOTAL

    SILÊNCIO TOTAL

    Ainda sobre a prestação de Tó Cardoso que só parou nas meias-finais do Itacoatiara Pro e nos deixou a todos (bodyboarders portugueses) expetantes sobre as etapas que se seguem… 

    Penso que já todos sabem que o jovem atleta da Nazaré terminou em quarto lugar numa disputa com o outro semi finalista do evento – o local Kalani Lattanzi; uma novidade da APB Tour para 2015. O Tó deu-se, portanto, bem com as condições pesadas deste reduto brasileiro, em muito parecidas às da sua (salvo seja) Praia do Norte. 

    O resultado é excelente e jamais será esquecido, ainda mais hoje em dia onde o nível é tão elevado… e em condições tão desafiantes como as que nos foram dadas a observar. 

    No entanto, nas últimas horas o silêncio foi total na imprensa nacional, o que não deixa de ser alarmante e motivo de meditação. Imaginem que a segurar o troféu estava, por exemplo, um dos surfistas portugueses mais mediáticos da atualidade como o Tiago Pires, Frederico Morais ou Vasco Ribeiro? 

    Minha nossa, qual não teria sido o frenesim nas TV’s, redes sociais e sites. Totalmente merecido, sublinhe-se. No entanto, sobre o feito de Tó nem uma única palavra…

    O resultado conseguido no Brasil é um dos melhores dos últimos anos conseguido por um português no circuito mundial. Logo, deve ser enaltecido e celebrado. É mandatório que o façam.

    Da minha parte só tenho a acrescentar: ORGULHO! Obrigado Tó pela tua dedicação. 


    Fotografia: Tony D’Andrea | Facebook 

  • ENTRE O MAR E A MONTANHA

    ENTRE O MAR E A MONTANHA

    Hugo Matos, 35 anos, é um dos filhos da Praia da Barra, Aveiro. Bodyboarder há mais de vinte anos, é agora chegada a hora de nos falar de temas vários, como o estado do bodyboard, a produção de vídeos e até uma das suas grandes paixões, a neve e os Alpes suíços. Cavaqueira para conferir aqui e agora.

    Fala-nos um pouco do que tens feito nos últimos anos?
    A minha paixão pelo Bodyboard revelou-se muito cedo. Tinha 14 anos quando, numa bela tarde a meio da semana, saí do meu treino semanal de Karate para receber a minha primeira prancha de Bodyboard a sério. Era uma Madrid, verde fluorescente, com slick skin e tudo! Fiquei sem palavras, sem qualquer reacão… Já tinha experimentado a sensação de andar nas ondas, mas apenas numa Suntalon. Escusado será dizer que no dia seguinte estava no mar gelado da Praia da Barra a experimentar e a deliciar-me com a velocidade e controlo do novo “veículo”.

    Com o passar do tempo, evoluí e lancei-me nas competições regionais, nacionais e em alguns eventos europeus que por cá passaram (em Aveiro), mas sem grande sucesso. Sou atleta federado na Associação de Surf de Aveiro, esta que tanto me mostrou e fez evoluir ao longo destes anos todos, não só pelo fator aprendizagem, mas também pela camaradagem e amizade genuína que por lá encontrei.

    Sem as competições de Bodyboard, em grande parte pelo fraco apoio das marcas envolvidas, tenho feito como outros tantos que estão espalhados pelo país, mantenho o feeling do desporto e a paixão em desbravar slabs, percorrer longos e secos tubos ou acertar grandes aéreos. Isso sim é o verdadeiro Bodyboard. Uma vez Bodyboarder, para sempre bodyboarder… ou até que o corpo diga o contrário!

    Neste momento trabalho em audiovisual na minha empresa, a HandMade Produções, que oferece todo o tipo de cobertura de eventos e serviços audiovisuais. É um projeto individual a dar cartas dentro e fora de Portugal. Também trabalho como operador informático do sistema de pontuação dos juízes e operador de câmara. É a empresa Refresh que faculta estes dois tipos de serviços. Portanto, sou freelancer de fotografia, comentador de provas, instrutor de Surf e Bodyboard e ainda DJ em pequenas festas.

    E como se processa a ida para a Suíça? O que motivou a tua saída do país?
    Desde há 13 anos que vou para os Alpes suíços, sempre no inverno, para o meio da montanha em Davos, trabalhar e aproveitar a neve no Snowboard. Essa decisão aconteceu quando tinha 21 anos e queria mais da vida e do mundo. Não queria passar parte da minha vida a estudar, então “virei” emigrante em part time. Assim, passo metade do ano em Portugal ou a viajar, por sítios como Marrocos, Costa Rica, Brasil, Indonésia e Europa; e a outra metade a “derreter” neve nos Alpes.

    O facto de ter emigrado, ainda que no regime de part time, possibilitou-me outro tipo de condições monetárias e sociais, contato com mentes mais abertas numa mistura cultural diferente e versátil. E foi aí que o Snowboard surgiu e se tornou noutra paixão… Foi o meu escape para o absentismo do Bodyboard.

    Como foram esses tempos fora de casa?
    Inicialmente foi um impacto grande e uma aventura ter de sair do país à procura de novas oportunidades, mas com as pessoas certas do meu lado facilmente encontrei uma nova casa onde fui acolhido como um irmão. Com o passar do tempo senti a falta da família, dos amigos e do mar, mas essa é uma sensação momentânea e o tempo passa num instante.

    Estás de regresso para ficar?
    Regressar a Portugal é uma questão que me incomoda há já uns três anos. Neste momento estou completamente dividido, talvez à espera que a própria situação financeira evolua e realmente se comece a notar uma progressão, seriedade e mudança no nosso governo. Deixar Portugal de vez é uma realidade, mas ainda não sei. Esta vida dividida cansa, mas compensa no final de tudo: dizes adeus à monotonia, conheces montes de pessoal porreiro e fazes amizades duradoiras. Há quem diga que viajar e conhecer o mundo é a melhor universidade da vida e eu não só acredito nisso como apoio profundamente. A verdade é que não trocava estes 13 anos de viagens e experiências por um canudo.

    Como ex-competidor, como vês o estado do bodyboard?
    A meu ver, o nosso Bodyboard está sempre em constante evolução. Uma evolução lenta sim, não nos atletas, mas por parte das empresas e marcas que teimam em não apoiar ou dar o devido retorno aos atletas e ao desporto. Contudo, sempre em evolução. Desde que me lembro que se fazem competições em Portugal, existe alguma vontade e meios para se fazerem eventos à seria em Portugal, temos ondas até dizer chega, slabs de classe mundial e condições naturais brutais. É preciso continuar a apostar e, principalmente, fazer com que aconteça.

    E como está a situação por Aveiro?
    Na zona de Aveiro existe vontade e querer por parte da Associação de Surf de Aveiro, mas eles não podem fazer milagres quando não há grandes apoios das marcas. Infelizmente, a longo prazo, esta situação sem apoios vai acabar por se tornar numa bola de neve que acabará por fazer com que cada vez mais atletas deixem de competir, mesmo para aqueles que estão a sair das escolas ou a quererem simplesmente iniciar-se na competição.

    Penso que o cenário do Bodyboard lá por fora é parecido. Por esse mundo fora existem atletas cada vez mais novos a “partir a loiça” e contamos também com uma panóplia de competidores como o Mike Stewart, Guilherme Tâmega, entre muitos outros, que estão a fazer com que o próprio desporto evolua. Acredito que o Bodyboard, em termos gerais, está bem de saúde. Obviamente, podíamos estar com mais e melhores apoios das grandes marcas, mas as coisas são como são…

    Que projetos para os próximos tempos?
    Os projectos futuros passam, para já, por me manter “dividido”, ou seja, na mesma situação entre a Suíça e Portugal. Vou continuar a aproveitar o melhor dos dois países. Gostava de fazer outra viagem, visto que as últimas foram feitas em 2009/2010. Talvez México, Filipinas ou continuar a conhecer o arquipélago indonésio que tantas e tantas ilhas e ondas solitárias tem para descobrir.

    Uma última mensagem…?
    Vão atrás dos vossos sonhos, pois ter um curso não é tudo na vida. “Mais vale um jovem pobre e sábio do que um rei ancião e insensato.” (Eclesiastes 4, Bíblia)


    Fotografia: André Neto & Amauri Di Maia

  • MAR DA CALHA ENCHEU SÃO JORGE

    MAR DA CALHA ENCHEU SÃO JORGE

    Foi ontem a estreia do documentário “Mar da Calha” do bodyboarder Hugo Pinheiro com os surfistas Tiago Pires e Vasco Ribeiro, numa produção da Red Bull Media House.

    O local escolhido foi a emblemática sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. Como era esperado, devido à entrada livre, os imponentes 900 lugares do recinto depressa se esgotaram e foi necessário recorrer a uma segunda sala que, mesmo assim, deixou muito boa gente de fora.

    A exploração de uma onda de sonho às portas de Lisboa – no Bugio – é o tema central do documentário que ao longo dos últimos dois anos reuniu uma vasta equipa de atletas, operadores de câmara, fotógrafos e outros tantos técnicos que trabalharam intensamente sob as orientações do realizador Gustavo Imigrante.

    No final, Hugo Pinheiro não escondia a satisfação. E nem podia. A iniciativa foi um sucesso. Faz falta ao Bodyboard mais produções deste género, pensadas, que contem uma história e cheguem a um público cada vez mais vasto.

    O teaser pode ser visto aqui. Já o documentário, para quem não conseguiu ingresso para o S. Jorge, estará disponível online a partir de 28 de junho. Stay tuned!


    Fotografia: Hugo Silva/Red Bull Contentpool

  • A SELFIE DO BODYBOARD

    A SELFIE DO BODYBOARD

    Não sei se será a melhor a Selfie que alguma vez vi, mas pelo menos parece-me ter o dom de conseguir redefinir – de alguma forma – o conceito em si que, aliás, caso não saibam, já data de 1839. Hoje em dia, a Selfie, na sua essência, é um autorretrato pessoal ou de um grupo que acaba quase sempre partilhada nas redes sociais.

    A grande maioria destes autorretratos são conseguidos a segurar uma câmara na mão ou então a apontar para um espelho, mas o sul-africano Alistair Taylor foi um pouco mais longe. Ele pegou nos seus dois filhos, meteu-os em cima da sua prancha e atirou-se a um shorebreak da costa norte do Havai.

    O resultado? A documentação da mais pura Selfie do Bodyboard.

    Na verdade, Alistair Taylor formou-se nas ondas de Durban e de Cave Rock, dominou o desporto na África do Sul nos idos de 90, precisamente numa altura em que se tornou bodyboarder profissional e quando já havia conquistado 9 impressionantes títulos nacionais.

    A sua fama de big rider não é desconhecida e para isso muito contribuíram vários episódios de onde posso destacar uma sessão de free surf em Mavericks (com ondas que mais pareciam montanhas), um set monstruoso em Pipe que o varreu do pico durante a final do internacional em 1997 e ainda o facto de ter sido o protagonista de um dos piores wipeouts de sempre em Shark Island – durante a competição em 2001 – que o atirou para uma cama do hospital.

    Embora ainda continue a competir, ocasionalmente, neste momento ele é mais pai a tempo inteiro, fotógrafo e shaper. É também casado com a brasileira Karla Costa que, caso não recordem, conquistou um título mundial GOB em 1999 e um ISA em 2000.

    Mais do que a Selfie em si, que por sinal está fantástica e deu azo a estas palavras, fica também a aula de história. Espero, sinceramente, que tenham gostado.