Author: ricardom_vieira

  • A História do Pipe Masters

    A História do Pipe Masters

    Aproveitando um artigo publicado na Vert #99 (abril 2010), que sofreu pequenas adaptações, fica então a conhecer um pouco da história do Pipe Masters.


    HISTÓRIA

    Pipeline é um nome que consta do dicionário de qualquer bodyboarder fervoroso. Este pico faz parte da nossa vida desde há muitos anos, contando-se imensos campeonatos e sessões memoráveis realizados naquele que é considerado um dos melhores spots do mundo para bodyboard. É, sem dúvida, parte integrante e indissociável da nossa história. Apelidada de Banzai Pipeline, nos anos 60 do século passado, esta onda é igualmente conhecida devido ao seu nível de exigência e por rolar por cima de um reef que já reclamou vítimas… literalmente!

    Situado em Ehukai Beach Park, tem a particularidade de funcionar em quatro pontos distintos: Pipeline é a fantástica esquerda que quebra com fortes ondulações de oeste, Backdoor é a direita contígua a Pipeline e que funciona com swell de norte. Quando o oceano chega à costa havaiana em proporções dantescas, o segundo e terceiro reefs podem estar a quebrar a uns bons metros da costa.

    Com o crescimento exponencial que o bodyboard tem vindo a sofrer um pouco por todo o planeta, Banzai Pipeline tem sido um dos destinos mais visitados pelos praticantes, principalmente na época que coincide com a etapa a contar para o mundial de bodyboard. Esta peregrinação de estrangeiros despoletou, ao longo dos anos, ferozes actos de repressão por parte dos locais face aos de fora (“haoles”). O localismo naquela zona atinge níveis escabrosos e muitos são os casos mediáticos de violência generalizada. Dave Winchester, Michael Novy e Cade Sharp são alguns dos riders mais conhecidos que sofreram na pele os efeitos da fúria havaiana, especialmente muito patente em grupos organizados de surfers locais prontos para a porrada. 

    EVENTOS

    O evento mais esperado do ano no circuito mundial de bodyboard é o Pipeline Pro (em 2016, Pipe Invitational). Durante muitos anos, este foi o local que marcava o término do ano competitivo e que, muitas vezes, servia para definir o novo campeão mundial. Mais recentemente, Pipe passou a abrir a temporada, mas a expectativa em torno deste espectáculo manteve-se intacta.

    Este ano o campeonato celebra 34 anos de existência. Pelo meio deste percurso de três décadas, algumas foram as pedras que surgiram no caminho e que mudaram ligeiramente o rumo dos acontecimentos. Por exemplo, em 1985 o circuito mundial de bodyboard não se realizou e em 2004 o espectáculo foi movido para Maui. O ano passado também não houve evento. À entrada para o novo milénio, o Pipeline Pro esteve em vias de não se realizar por falta de um patrocinador principal. Porém, eis que o melhor surfista de todos os tempos daquele pico trata de resolver a situação, patrocinando ele, através da sua marca, a principal etapa do circuito mundial: Mike Stewart. Depois disto, o evento até ganhou outra proporção, surgindo uma conceituadíssima empresa de produção de jogos de consolas como principal financiador.

    Nos dias que correm, e com todas as evoluções tecnológicas que se verificam a um ritmo desmesurado, a competição pode ser seguida via webcast, o que facilita e une os aficionados do bodyboard em torno deste ponto geográfico único no mundo e possibilita que todos sigamos o espectáculo que é o bodyboard em Pipeline. Apesar de alguns altos e baixos, Pipe continua firme e certamente manter-se-á por muitos e longos anos, continuando a figurar neste nosso mapa histórico. 

    CAMPEÕES E OS PORTUGUESES

    A estreia de Pipeline como campeonato de bodyboard foi no longínquo ano de 1982. Daniel Kaimi foi o primeiro vencedor, num evento que ficou marcado pela hegemonia havaiana: pelos menos os oito primeiros classificados residiam na ilha. À data, o vencedor levava para casa um prize-money de 1.500 dólares.

    Com o passar dos anos começou a surgir uma figura incontornável no pico e no desporto. Venceu por 11 vezes o evento em Banzai Pipeline, um feito nunca antes conseguido. Mike Stewart afirmou-se como rei e senhor daquele reef break sendo que, como acima referido, é hoje internacionalmente reconhecido como o melhor surfista de sempre naquele spot. Não só levou imensas taças para casa, referentes ao bodyboard, como também conquistou outras tantas na categoria de bodysurf. O testemunho passou para as mãos de outro havaiano: Jeff Hubbard, o digno sucessor de Mike como rei do spot, contando já com quatro vitórias em eventos a contar para o mundial.

    No caso dos estrangeiros, os brasileiros também se deram bem com Pipeline. Guilherme Tâmega venceu por duas vezes, mas o seu conterrâneo Paulo Barcellos também se mostrou disponível para levar o ceptro para terras brasileiras, como se verificou em 2008. Apesar de tudo, os aussies foram quem melhor conseguiu fazer frente aos havaianos na luta pelo título de Pipe.

    A competição costuma ser um bom prenúncio para aqueles que a vencem. Por diversas vezes, o vencedor do evento em Pipe atingiu mesmo o topo do mundo e venceu o circuito mundial nesse mesmo ano. São alguns exemplos Damian King, que chegou a vencer em Pipeline duas vezes, Andre Botha – sagrou-se bicampeão mundial em dois anos seguidos, tendo vencido em Pipe nessas mesmas épocas – ou o eterno Mike Stewart.

    Os portugueses também fazem questão de participar nesta festa que é o evento de Banzai. Gonçalo Faria foi o primeiro a constar no top 5 numa etapa no Havai. Foi em 1994, ano em que o Pipeline Pro registou o maior swell que alguma vez surgiu por altura da competição, que Ratinho atingiu o 5º lugar, façanha que repetiu em 1999. Paulinho também foi um dos portugueses que embarcou para o sonho havaiano e, em 1998, esteve bem perto: as meias-finais foram o máximo que atingiu, fixando-se num honroso 7º posto da tabela classificativa. Rui Ferreira é outro dos nomes que marcam a história dos portugueses em Pipe: foi 4º classificado em 2001 e obteve um memorável 3º lugar em 2003. Nos últimos anos é Hugo Pinheiro que melhor tem representado as cores nacionais no arquipélago do Pacífico. O sua melhor classificação foi um 4º lugar em 2008.

    Analisando a história dos eventos femininos em Pipeline, Dora Gomes foi uma das tugas que mais vezes pisou aquele areal. Em 2000 ficou-se por um bom 7º lugar ao atingir as meias-finais, resultado igual ao do ano anterior, mas em todo o caso é Rita Pires que detém a melhor prestação com um fantástico 2º lugar conseguido em 2008. 

    LISTA DE CAMPEÕES

    1982 – Daniel Kaimi (Havai)

    1983 – Mike Stewart (Havai)

    1984 – Mike Stewart (Havai)

    1985 – Não teve lugar

    1986 – Ben Severson (Havai)

    1987 – Mike Stewart (Havai)

    1988 – Mike Stewart (Havai)

    1989 – Mike Stewart (Havai)

    1990 – Mike Stewart (Havai)

    1991 – Mike Stewart (Havai)

    1992 – Mike Stewart (Havai)

    1993 – Michael “Eppo” Epplestun (Austrália)

    1994 – Guilherme Tâmega (Brasil)

    1995 – Mike Stewart (Havai)

    1996 – Mike Stewart (Havai)

    1997 – Steve “Bullet” Mackenzie (Austrália)

    1998 – Mike Stewart (Havai)

    1999 – Andre Botha  (África do Sul)

    2000 – Andre Botha (África do Sul)

    2001 – Andrew Lester (Austrália)

    2002 – Guilherme Tâmega (Brasil)

    2003 – Jeff Hubbard (Havai)

    2004 – Damian King (Austrália)

    2005 – Não teve lugar em Pipe; prova foi disputada em Honolua Bay

    2006 – Damian King (Austrália)

    2007 – Jeff Hubbard (Havai)

    2008 – Paulo Barcellos (Brasil)

    2009 – Ryan Hardy (Austrália)

    2010 – Amaury Lavernhe (Ilha Reunião)

    2011 – Jeff Hubbard (Havai)

    2012 – Jeff Hubbard (Havai)

    2013 – Ben Player (Austrália)

    2014 – Ben Player (Austrália)

    2015 – Não teve lugar

    2016 – Pierre-Louis Costes (França)

    2017 – Jeff Hubbard (Havai)

    2018 – Não teve lugar

    2019 – Pierre-Louis Costes (França)

    2020 – Iain Campbell (África do Sul)


    Fotografia: Sacha Specker/IBA
    Todos os direitos reservados. Está proibida a reprodução parcial ou integral sem autorização escrita. 

  • Conhece a Fotografia de Tó Mané

    Conhece a Fotografia de Tó Mané

    Mais uma galeria da série “Boogie Frames” cujo autor dispensa apresentações. António Manuel de Sousa Vieira e Silva, 40 anos, mais conhecido por Tó Mané, natural da Cidade Invicta relembra como começou a fotografar:

    “Desde muito cedo, fui influenciado pelo meu avô que tinha na Fotografia uma das suas paixões. Ele tinha várias máquinas fotográficas, que na altura eram todas analógicas e manuais. Comecei a fotografar tudo o que me chamava atenção, desde paisagens, retratos, etc. Desde aí, comecei a brincar com tempos de exposição e aberturas. As máquinas ainda tinham aquele ponteiro do fotómetro e foram estas experiências “brincadeiras” que me deram uma grande bagagem a nível técnico.”

    Quando e por que é que começaste a fotografar bodyboard?
    Como comecei a surfar em 1988 é natural que a fotografia refletisse o meu quotidiano, o bodyboard no Norte na altura era muito forte e com um nível superior ao surf. Foi aí que começaram a surgir as minhas primeiras capas na Vert.

    O que têm a fotografia e o bodyboard que te atraem?
    Na fotografia como no bodyboard todos os dias são diferentes, as ondas a luz e as manobras suprendem-nos constantemente.

    Que outras paixões tens além da fotografia e de que modo se refletem no teu trabalho?
    Adoro viajar, principalmente de carro porque vejo lentamente a mudança da paisagem e das gentes. Adoro experimentar novos sabores, cheiros e culturas. Isto talvez me dê a inspiração para o que faço. Neste momento pratico Jiu-Jitsu o que me leva a uma paz de espirito e voltei a reencontrar a pica que sentia quando comecei a surfar. Adoro também tratar da minha horta que plantei no meu terraço e passar tempo com a minha família e amigos.

    O que fazes para viver e onde se encaixa a fotografia?
    A fotografia é o que faço para viver. É uma paixão que se tornou profissão.

    O que é que te influencia? Que fotógrafos servem de referência?
    Tudo me influencia, adoro ver novas imagens e no nosso tempo estas estão mais disponíveis por causa das redes sociais. Não importa qual seja o fotógrafo, com uns aprendes o que fazer e com outros as novas maneiras de ver as coisas.

    O que é que te dá mais pica de fotografar no bodyboard?
    Nunca tinha pensado nisto desta maneira, mas ao pensar nisso o que sinto é igualmente gratificante seja uma grande manobra, uma grande onda sem ninguém ou um bodyboarder a contemplar simplesmente um sol fabuloso. Uma boa fotografia preenche-me…

    Quem é o teu rider favorito de fotografar? E onda?
    A empatia entre um rider e o fotógrafo é uma das chaves de ouro para alcançar o sucesso. Nos meus longos anos de fotografia os riders que se evidenciaram foram o meus queridos amigos Rui Ferreira, que vejo como sendo o bodyboarder mais talentoso que Portugal já alguma vez teve, e o atirado “psico” Ricardo Faustino. As ondas podem ser grandes slabs como grandes triângulos, o que importa é que os riders possam dar espetáculo para que possa fotografar.

    Onde publicas e partilhas o teu trabalho?
    Publico na Vert assim como em todas as revistas e sites de bodyboard no mundo. Também podem visitar o meu Facebook, Instagram e site (links em rodapé).

    Alguma vez fizeste bodyboard?
    Já apanhei umas ondas de bodyboard. Uma vez troquei a minha prancha de surf com a de bodyboard do Faustino, numa slab na zona centro do país, e divertimo-nos à grande. Cheguei a mandar uns valentes tubos.

    Descreve-nos o que seria para ti a chapa perfeita.
    Neste momento, preocupo-me em ter uma visão própria onde tento enquadrar o bodyboarder na sua manobra plástica, com detalhes de luz, contrastes e enquadramentos, que chamem a minha atenção. Aí sai a foto perfeita! xxx


    Para acompanhar o trabalho de Tó Mané basta seguir: Facebook | Instagram | Site Oficial

  • A ART HOUSE DE PHIL GALLAGHER

    A ART HOUSE DE PHIL GALLAGHER

    Phil Gallagher é um artista na verdadeira extensão que o termo acarreta. Conhecido no mundo do bodyboard como fotógrafo, o australiano de 35 anos fundou o jornal fotográfico Le Boogie em 2010 e gere agora uma publicadora que se estende aos domínios da música e dos vídeos.

    Hoje a Le Boogie é aquilo que Gallagher descreve como uma “art house“: um ninho de artes e artistas ligados à escrita, fotografia, vídeo e música que se dedicam a produções pessoais que nascem de uma fervorosamente paixão pelas coisas que os fazem sentir vivos: a música pela música, os filmes pelos filmes, o bodyboard pelo bodyboard.

    Pouco mais de uma semana após o lançamento de SPLIT, a última produção videógrafica da Le Boogie, Gallagher reflete sobre a difusão irracional de vídeos de bodyboard para a web, o futuro da publicação e o bodyboard hoje e amanhã.

     

    O que é exatamente o SPLIT?

    Quatro atletas juntaram-se a outros tantos cinematógrafos para criar um poderoso filme de 30 minutos. Cada um concebeu as suas secções e nós apenas juntámos tudo e lançámos o material.

    Com surgiu o projeto?

    Há demasiados conteúdos para a web que são produzidos sem propósito algum que não seja o sucesso durante os dois-três dias em que andam por aí e que depois caem no esquecimento. Nós tentámos que o pessoal trabalhasse em algo que os fizesse sentir motivados, que fosse um divertido desafio, em que, no fundo, se digladiam uns contra os outros.

    Que impacto procuras com o SPLIT?

    Trazer algum sentido de divertimento e competitividade às produções bodyboarders. Procurar que as pessoas deixem de debitar vídeos irreflectidos na web apenas para receberem likes e cliques.

    Que desafios te surgiram ao longo desta produção?

    Quatro equipas diferentes significa quatro conjuntos de problemas diferentes e, com prazos apertados, as coisas aqueceram bastante já para o final, no toca a reunir todos os trabalhos e manter toda a gente satisfeita.

    Nos últimos meses lançaste alguns filmes sob o nome Le Boogie e estás agora a promover um outro, o The 8. Além disso, também tornaste a Le Boogie numa editora de música. Porquê esta súbita mudança de rumo?

    Pura e simplesmente não conseguimos vender revistas. Atualmente temos uma vasta base de fãs e uma consistente base de dados e podemos ajudar as pessoas a tornar os seus projetos rentáveis. A música é apenas por divertimento, nada demasiado sério. De qualquer modo, o facto de termos a tal base de fãs permitiu que as pessoas ouvissem novos sons de amigos nossos e isso faz-nos sentir bem. É uma forma de ajudarmos uns amigos e de nos mantermos ocupados.

    Que tipo de música promovem?

    Todos os tipos, desde pop, rock, metal, electro e outros géneros que, em boa verdade, não sei como os definir. Todo este pessoal adora a música e tem empregos diários e só procura fazer música pela música e nós tentamos que as pessoas vão aos seus espectáculos.

    Estás cansado da imprensa escrita?

    Fazer uma revista é o mesmo que tirar uma fotografia analógica: na realidade estás a fazer tudo isto para ti e nenhum cliente vai pagar-te pelo teu esforço extra por uma fotografia não-digital ou por queres exibir conteúdos de bodyboard de excelência. A internet é fantástica, trouxe coisas muito boas e utilizo-la diariamente. No entanto, com tanto conteúdo espalhado, independentemente da qualidade, porque é que as pessoas hão-de pagar para ver mais?

    Ainda vamos ter mais revistas Le Boogie?

    Temos uma edição anual de fotografia planeada para sair no final do ano e talvez seja o fim, quem sabe. Se vender e as pessoas comprarem e conseguirmos cobrir os custos, ficamos super extasiados, embora o objetivo do negócio não seja apenas cobrir os custos de produção.

    Que pretendes atingir no bodyboard com todos estes projetos?

    Qualidade com um toque humano.

    O bodyboard está, neste momento, numa encruzilhada: não tem uma cultura comercial sustentável nem uma contra-cultura. Para onde vai o bodyboard? O que será do desporto nos próximos anos?

    Não vou mentir, estamos numa fase negra. Se amas o bodyboard, nunca vais parar, mas de um ponto de vista empresarial creio que é altura de nos colocarmos em low-profile e simplesmente cortar no que está a mais. Parece-me que há falta de dinheiro ou que simplesmente não o querem investir em projetos e publicidade. Compreendo isso perfeitamente, acredita. Se não tens dinheiro, não vais gastar. Talvez as pessoas já não façam bodyboard. É alucinante, vejo tanta gente a surfar e a ostentar os melhores e mais recentes materiais, mas talvez continue a ser a falta de dinheiro aquilo que mais nos atinge.

    Em que cultura se insere a Le Boogie?

    Odeio usar este termo, mas lá terá de ser à falta de melhor: é uma art house. Nós tentamos dar um lado qualitativo às coisas e não nos preocuparmos se lucramos e rebentamos o dinheiro numa festa – leia-se, uma tour ou apresentação de um filme – se as pessoas gostam disso. Tendemos a dizer as coisas como são e não açucarar a merda toda que se está a passar e que nos afeta. Honestamente, nós somos assim. Se jogássemos pelas regras e disséssemos que todos ripavam e que estes novos produtos são espetaculares e que toda a indústria é perfeita, estaríamos a mentir na nossa própria cara e a lançar uma carrada de tretas numa publicação de merda. Qualquer pessoa com um smartphone pode ser um blogger e fazer o que fazemos, mas terão eles os tomates para atrair as pessoas e a confiança da malta na indústria?

    Que outros projetos tens em agenda para um futuro próximo?

    O Photo Annual é o principal neste momento. Tínhamos esperança em fazer nova rodagem do Passing Through, mas tivemos de adiar esses planos devido à falta de apoios. Continuar a fotografar e filmar e tentar que o site continue a aguentar. Na verdade, apenas viver um dia de cada vez.


     

    Website: Le Boogie | SPLIT está disponível em versão digital por $5 | Fotografias Perdidas: PhilTheDistraction

  • BLAKE PARKER

    BLAKE PARKER

    Numa calorosa tarde de verão em Agosto, blakeparker, um desconhecido utilizador do Tumblr, inicia uma conversação comigo através daquela plataforma de blogging.

    – You Portuguese?
    – Proudly, mate! 😀
    – Awesome. I’m an aussie living in London. Just spent 3 weeks travelling up the coast [of Portugal]. Such an epic place! Do you boog?

    À última pergunta, a amizade está indiscutivelmente estabelecida.

    Como se lê na sua alcunha de internauta, trata-se de Blake Parker, fotógrafo de 22 anos natural de Newcastle, East Coast Australia, que agora vive em Londres, Reino Unido. Parker tem uma ligação a Portugal por via da namorada alfacinha e até visitou este canto europeu há poucas semanas atrás, passando mesmo pela Ericeira e pelas ondas do Reef.

    Professor primário no dia-a-dia e fotógrafo nos tempos livres, Parker dedica-se às chapas de bodyboard, surf e tudo o que se relacione com ondas e até conta com algumas publicações na Riptide. Contudo, a curiosidade pela fotografia não se encerra pelo mar, pelo que agora se estreou na arte da fotografia analógica e na captura das culturas que o rodeiam.

    Após meia dúzia de trivialidades trocadas através do Tumblr, Parker aceitou o convite para partilhar com a VERT os seus 15 momentos favoritos captados até hoje no mar e contar-nos o que o influencia e o que procura captar com nas suas fotografias.

     

    Por que são estes os teus 15 momentos favoritos?

    Escolhi estas imagens porque acarretam significativas memórias na minha mente. Uma metade das imagens são de casa [East Coast] e representam sessões fantásticas, seja por quem estava a surfar, pela qualidade das surfadas ou pela luz que havia no momento. A outra metade são de viagens e aqui acredito que o que vejo durante uma viagem e que me leva a criar uma fotografia é tão importante quanto uma imagem de bodyboard ou do mar. Durante estas jornadas vi coisas simplesmente incríveis.

    O que procuras captar quando fotografas uma onda ou um bodyboarder?

    Procuro captar a essência dos spots onde me encontro e não tanto focar-me apenas nas ondas e nos bodyboarders. Registar a qualidade de um lugar e o surf que está a acontecer ao mesmo tempo permite que a fotografia ganhe um outro valor. Além disso, uma imagem que contém pormenores do local onde foi tirada permite-me recordar de forma mais vívida aquela sessão. Creio que é isto que está a evoluir na minha fotografia desde que me mudei da Austrália para Londres.

    O quê ou quem é que influencia?

    Há tantos fotógrafos fantásticos – principalmente ligados ao bodyboard – que não consigo apontar ninguém em particular. Sempre gostei muito do Ray Collins, Mark Tipple e Trent Mitchell. De um modo mais geral, gosto imenso de ouvir histórias e ver vídeos das pessoas que amam ou têm alguma relação especial com o que quer que façam na vida. No fundo, que se está a divertir mais, está a criar coisas fantásticas, o que é algo que mantenho sempre em mente. Neste momento, a minha motivação para a vida e para a fotografia é trabalhar o máximo possível para ter dinheiro para viajar e quem saber ter a sorte de calhar num emprego que me permita ter este estilo de vida.

    Quando e porque é que começaste a fotografar?

    Iniciei-me no inverno de 2011. A minha família comprou uma DSLR para principiantes e consegui convencê-los a deixar-me levar para a praia, sobre promessa de que cuidaria bem da máquina. Então, depois do surf, ficava sempre fotografar a ação dentro de água. No inverno seguinte, os meus pais foram de férias, o que me fez ficar sem máquina. Então guardei algum dinheiro e comprei uma Canon 7D. Desde então tenho comprado material para melhorar aquele que já tenho.

    Por onde andaste em Portugal este Verão? Como foi a experiência?

    Portugal foi épica! Se houvesse alguma oportunidade de trabalho por aí, não hesitaria em mudar-me. O estilo de vida e a atração pelo oceano é algo que me apela aos sentidos. Tive sorte pela oportunidade em visitar alguns sítios ao longo do litoral, juntamente com a família da minha namorada, o que me permitiu emergir um pouco na cultura portuguesa. Também apanhei algumas ondas na Ericeira, foi muito divertido. O ambiente dentro de água também é muito bom, é mais relaxado, menos competitivo em comparação com a Austrália.

    Que planos tens para o futuro próximo em termos de viagens e fotografia?

    Tenho duas viagens planeadas para França no final do ano para surfar e fazer snowboard. Espero que tenha sorte em apanhar algumas ondas enquanto lá estiver. Enquanto fotógrafo, espero continuar a evoluir e a divertir-me no processo. Estou também a iniciar-me em fotografia analógica de 35mm, o que me permite manter as coisas frescas e interessantes. No próximo ano conto continuar atrás de umas valentes slabs, possivelmente nas Islândia ou novamente na Escócia e Irlanda. Até mesmo Portugal ou Canárias. E, claro, continuar explorar Inglaterra.


    Fotografia: Blake Parker | Site Oficial | Tumblr | Lighton35

     

  • NORTHERN NOMADS

    NORTHERN NOMADS

    Northern Nomads é um projeto que retrata o desconhecido estilo de vida e viagens dos bodyboarders do Norte de Portugal e Espanha. Os cenários frios e cinzentos das regiões de Viana do Castelo e Galiza abrigam uma entusiasta comunidade devota a explorar as melhores ondas da costa nortenha da Península Ibérica e a documentar a vida e experiências nas suas cidades e vilas.

    Para além de dropar umas slabs com a malta, André Alves é o homem por detrás do blogue visual, cuja maioria dos intervenientes é português. André partilha os frames que revelam o espírito nómada do grupo e as gentes e culturas daquelas regiões, acrescentando ainda imagens que detalham uma história que se adapta à mensagem do Northern Nomads.

    O que é o Northern Nomads?
    É um projeto que documenta um grupo de amigos que viaja para surfar. É o retrato do nosso dia-a-dia, do nosso lifestyle, em que mostramos as nossas viagens por Viana do Castelo e norte de Espanha. O projeto teve tão boa aceitação e as pessoas curtiram tanto que vamos aproveitar e trazer imagens sempre que viajamos. Ainda temos fotografias de outras viagens que queremos publicar.

    Que impacto pretendem ter?
    Queremos apenas divulgar à comunidade o que se passa pelo norte, porque não temos assim tanta exposição quanto isso, não temos muitos meios. Além disso, sem a Vert em formato papel, temos ainda menos meios de divulgação. Mas quisemos dar uma imagem do que andamos a fazer por aqui.

    Que tipo de cenários ou temas fotografam?
    Gostamos de cenários nómadas, um bocado frios, a preto e branco. Tentamos recriar a ideia de inverno, frio, que é basicamente o nosso dia-a-dia lá em cima. Mas também temos no blogue fotografias que não são nossas, mas que foram postas ali com o propósito de dar um diferente enquadramento ao espaço. Não têm de encaixar perfeitamente, mas dão uma ideia da mensagem que queremos passar.

    Que mensagem pretendem transmitir com o Northern Nomads?
    Queremos passar uma mensagem de boa vibração, do lifestyle que nós adoramos e do desporto que é a nossa vida. Durante mais de um ano, enquanto estávamos quase todos no desemprego, viajávamos, surfávamos e curtíamos todas as semanas, pelo que queremos mostrar isso.

    Como é a cena bodyboarder em Viana do Castelo?
    Há muitos bodyboarders em Viana, temos uma boa comunidade. É muito mais unida do que a surfista. Somos todos super amigos, unidos e damo-nos quase todos bem. Claro que há as quezílias normais do desporto, mas temos um grupo forte, unido e queremos é fugir ao crowd e apanhar boas ondas, sobretudo para bodyboard. Viana do Castelo é um daqueles raros exemplos em que o inverno é pior que o verão em termos de ondas. Por isso, nessa altura, temos de viajar três horas até à Corunha ou Galiza para surfar. Nós preferimos, enquanto bodyboarders, apanhar ondas melhores e que nos possibilitem surfar melhor e divertirmo-nos mais do que ficar na nossa cidade a apanhar ondas de merda.

    Qual é o vosso spot favorito em Viana do Castelo?
    No verão paramos mais na praia da Arda, onde foi realizado o primeiro mundial de bodyboard em Portugal [n.d.r.: em 1994]. No inverno é mais o Cabedelo, mas não é uma onda tipicamente bodyboarder, não apreciamos muito.

    E no norte de Espanha?
    A zona da Galiza, sobretudo as slabs mais conhecidas e El Faro – uma onda que dá uns triângulos espectaculares – e Corunha, que tem montes de picos fundo de areia e pedra.

    Como é que se dão com a malta do norte de Espanha?
    Ali na Galiza é tudo pessoal altamente, boa onda. O Cristian Perez, que também aparece no blogue, surfa muitas vezes em Viana, juntamente com o fotógrafo Angel “Fotosplino”. Muitas vezes avisamo-lo que está bom em Viana e ele avisa-nos sobre a Galiza. É pessoal super humilde, damo-nos todos muito bem.

    O que vos motiva para o bodyboard e fotografia?
    Em relação à fotografia, tivemos a sorte de ter o fotógrafo Rúben Laranjeira aka Uriel Photography a morar em Viana durante alguns anos. Foi o primeiro fotógrafo a chegar a Viana com uma caixa estanque e a seguir-nos para todo o lado. Então aproveitámos a chegada dele para trabalhar mais esse aspeto e a fazer mais fotos. Até há dois anos para cá, nunca tínhamos tido um fotógrafo dentro de água, não havia lá em cima. Já para o bodyboard nem é preciso motivação, só o facto de podermos estar em contato com o mar e apanhar boas ondas é suficiente. E a cada viagem que fazemos, há uma experiência nova, é uma forma de conhecermos novas pessoas, novos bodyboarders, compreendermos a dinâmica de cada sítio a que vamos. Nós, apesar de morarmos muito perto de Espanha, temos muitas diferenças para eles e isso vê-se até na forma como eles nos recebem.

    Quais são as influências para este estilo de vida?
    É o próprio lifestyle, aquele estilo de vida descontraído, levar a vida de uma maneira muito slow e boa onda. Nós gostamos é de surfar entre amigos, boas ondas, sair à noite e beber uns copos.

    Quem é que está envolvido nesse coletivo e o que é que cada um faz?
    O Pedro Meira, bodyboarder, que até teve uma dupla página na Vert com algumas fotos que aparecem no blogue; o Cristian Perez, talentoso bodyboarder galego; o Paulo Escaleira, o Luís Gama, o Ruben Alves e o Rúben Laranjeira. Há alguns que não aparecem ainda no blogue, mas em breve aparecerão.

    Em que consiste o vosso projeto paralelo – 157 – e como é que este se revela no Northern Nomads?
    Isso engloba muito mais gente, mas também tem ligações ao bodyboard e ao surf. A principal ligação dos 157 é a street art. Depois foi alargando um bocadinho o conceito à cidade e aos nossos amigos. Também começámos a fazer umas roupas e uns autocolantes. Aquilo foi pegando, fomos espalhando a mensagem e, hoje em dia, já somos bastantes a representar o coletivo.

    Qual é o futuro do Northern Nomads?
    Agora passa por viajarmos, fotografarmos mais e ir registando as próximas viagens.


     

    Fotografia: ©Northern Nomads | Blog: Northern Nomads

  • WAVE OF THE WEEK #17

    WAVE OF THE WEEK #17

    O 17º episódio de Onda da Semana powered by Vert, filmado por António Tomás e editado por Miguel Nunes, traz-nos Porkito na Figueira da Foz.